São Paulo Knife Show.

 

Aconteceu em São Paulo, nas dependências do Clube Shooting, nos dias 9 e 10 de dezembro do ano de 2000, o evento que reuniu mais de 26 expositores, representantes do que há de melhor na cutelaria brasileira. Revelando novos e brilhantes talentos, o São Paulo Knife Show ratificou a necessidade desse espaço para a divulgação de uma arte em franca ascensão no Brasil e, segundo palavras de seu organizador, Ivan de Almeida Campos, promete ser o primeiro de uma série de outros eventos anuais.

Nesses últimos três anos, o mercado da cutelaria no Brasil recebeu um forte incremento de jovens profissionais da mais alta qualidade que, pelo esforço próprio, vêm aprimorando as técnicas de transformação do aço em belíssimas facas e outras ferramentas de corte. As tendências são diversas, variando desde o trabalho tradicional, envolvendo o forjamento de aço carbono, até aquele mais moderno onde são utilizados os aços inoxidáveis especiais e tratamentos térmicos complexos. Independentemente do estilo e das técnicas de cada um, ficou claro para todos que o produto final brasileiro não deve qualidade ao do mercado norte-americano e, o que é melhor, é bem mais barato.

O público compareceu assiduamente e apreciou de perto as inúmeras peças de cutelaria. Teve oportunidade de trocar informações com os profissionais e entender melhor a diferença entre o produto artesanal e o industrializado, além de participar da escolha da faca vencedora do concurso promovido pela Knife Company, empresa de Laércio Gazinhato.

Conhecemos Marina Farão, de Lençóis Paulista, considerada a primeira e única artesã da cutelaria brasileira até o momento. A sutileza do seu design deixa transparecer a delicadeza feminina e talvez seja essa característica que justifique a praticidade e leveza de suas facas. Marina confessa que ainda sofre certo preconceito por parte de alguns que duvidam da capacidade feminina para desempenhar um trabalho como esse, mas, ao mesmo tempo, se realiza com os elogios de sua crescente clientela.

Leandro Pazini, de Foz do Iguaçu, comprovou que não é mais o Ferro o elemento responsável pela saúde de seu sangue, e sim o aço. Como um bom Pazini, família que atua no ramo da cutelaria há oitenta anos, Leandro conquistou a todos não só com seu elaborado trabalho mas também com sua simpatia e simplicidade. Fascinado pelo hollow ground, suas peças são trabalhadas em aço 52100, 5160, damasco em até seis padrões e também nos aços inoxidáveis BG-42, ATS-34 e 440C, não escondendo predileção pelo estilo clássico e esbanjando domínio sobre técnicas de envelhecimento. Este é, com certeza, um dos grandes nomes da cutelaria brasileira. Quem perdeu o SPKS e quiser conferir, basta acessar a página www.facas.net

Outro destaque do Show foi o artista plástico Josué de Araújo, de Americana, São Paulo. Especialista na transformação do couro em belíssimas bainhas, coldres, cinturões e outras obras de arte, Josué foi iniciado no ofício por seus tios que, nos EUA, confeccionaram diversos trabalhos para grandes empresas e, aqui no Brasil, para as grifes de Chitaozinho e Xororó e de Lúcia Veríssimo.

Maiores informações sobre Josué poderão ser obtidas neste site no endereço www.cutelariavirtual.com/josue

 

Representando o Estado de Minas Gerais, Jacinto de Melo, de Pará de Minas, trouxe ao SPKS um sofisticado trabalho que chamou a atenção de todos por suas empunhaduras em madeira zigrinada e lâminas vazadas em flat ground. No mercado há pouco mais de dois anos como profissional, em 1999 participou do Show de Austin, no Texas, onde marcou presença comercializando todas as peças que expôs. Jacinto é adepto dos aços carbonos forjados, dando preferência ao D6 e ao K100 para suas lâminas e ao 52100 para as miniaturas.

José Alberto Paschoarelli e Emerson Lopes Pinheiro, professor e aluno lado a lado expondo suas facas. Ambos de Lençóis Paulista, S.P, mostraram por que a cidade está se tornando um pólo de cutelaria no Brasil. Com apenas 20 anos de idade, Emerson é considerado o mais jovem profissional brasileiro que se tenha conhecimento e já tem intimidade com diversos tipos de aço. Em parceria coma a Cutelaria Hammer, ajudou a confeccionar mais de cem facas destinadas aos novos formandos do PARA – SAR (Pára-quedistas Service Air Rescue), grupo de elite da Força Aérea Brasileira responsável pelas atividades mais radicais.

As diversas palestras proferidas durante o SPKS tiveram grande audiência e contaram com a participação de profissionais do mais alto nível. O Doutor Marcelo Pereira, Procurador do Estado de São Paulo e apaixonado colecionador de facas, abordou com muita clareza os aspectos legais do porte de armas brancas. Arnaldo Goeldi, policial civil e mestre de Kung Fu, demonstrou diversas técnicas de combate com facas. Flávio Duprat trouxe ao público um amplo panorama sobre as técnicas de afiação e a diversidade de abrasivos existentes no mercado para tal finalidade. Flávio Ikoma, célebre cuteleiro de Presidente Prudente, S.P, e consultor técnico de diversas revistas para assuntos técnicos de metalurgia e cutelaria, seqüestrou a atenção do público com sua maneira simples de desvendar os segredos e a complexidade do aço.

Diretamente do Rio Grande do Sul para o SPKS e para o mundo, em primeira mão, o lançamento de Rodrigo Sfreddo, Edson Machado dos Reis, e Luciano Oliveira Dorneles. Esses três jovens autodidatas da Cutelaria Fina marcaram presença com destaque, mostrando um estilo diferente nas diversas peças de damasco trabalhado com maestria em diversos padrões. Como bons "gauchos", dão preferência aos aços carbonos forjados, imperativos no mercado do Sul.

Ricardo e Roberto Lala, da Cutelaria Korth, foram os vencedores do concurso, recebendo o prêmio Knife Company para Bowies Clássicas com a peça "Tributo a D.E. Henry". Trabalhada em aço 440C, 57 HRc de dureza e empunhadura em Stag com detalhes em Ébano e espaçadores de latão zigrinado, essa faca mostrou a habilidade refinada dos seus criadores. Além dela e de diversos outros modelos de facas, foi apresentada rica variedade de modernos canivetes liner lock com lâminas em aço 440C, liners de titânio anodizado e empunhaduras diversas, desde as mais tradicionais às de fibra de carbono, Talonite e outras.

O SPKS nos mostrou que os rumos da cutelaria brasileira estão mudando radicalmente para melhores horizontes. Observamos que o número de profissionais vem aumentando em proporções consideráveis e a qualidade dos trabalhos supera expectativas. Nosso mercado oferece tanto o produto tradicional, forjado à mão, como o moderno, de última geração, repleto de tecnologia. Se comparado ao mercado norte americano, tomado como referência mundial, não deixa nada a desejar no que se refere à qualidade final e, mesmo que boa parte das matérias primas utilizadas venham de lá com altíssimo custo imposto pelas barreiras alfandegárias, nosso preços finais são mais acessíveis. Essa conquista se deve ao amor pela arte, à criatividade e à determinação dos nossos cuteleiros que, com o famoso jeitinho brasileiro, contornam todas as dificuldades impostas pela tarefa de domar o aço.

 

 

Reportagem e fotos
Milton Hoffman / Rennó

 

Nossos agradecimentos especiais
ao amigo Milton Hoffman.