Tratamento Térmico

As informações a seguir foram escritas por FLÁVIO IKOMA, cuteleiro profissional,
que domina a arte do tratamento térmico, a quem agradecemos imensamente
pelo artigo escrito especialmente para a CutelariaVirtual

 

Uma das coisas mais difíceis de ser definido em uma faca é a qualidade do seu tratamento térmico, pois ele não é visível a olho nu , e uma das melhores maneiras de checar a qualidade do tratamento térmico é testando a faca, porém para a maioria dos cuteleiros não é possível realizar testes com todas as facas , pois os mesmos consomem muito tempo e dinheiro, outra maneira mais barata e tão eficiente de saber se o tratamento térmico está bom é estabelecer parâmetros.

Antes de explicar como se estabelecer estes parâmetros é preciso definir-se o que é tratamento térmico. Basicamente tratamento térmico é o processo no qual altera-se as propriedades mecânicas de um metal ( neste caso o aço) através da temperatura (aquecendo-o ou resfriando-o). Um tratamento térmico muito conhecido é a têmpera (processo usado para endurecer o aço), porém não é o único , além da têmpera existe também o revenimento e o tratamento sub-zero, ambos muito importantes para o alto desempenho de uma faca.

Abaixo descrevo cada um dos três processos:

Têmpera: É o primeiro passo para o tratamento térmico completo de uma lâmina, consiste no aquecimento da lâmina acima de uma temperatura mínima (esta temperatura varia de acordo com o tipo de aço) manter esta temperatura por alguns minutos para que toda peça atinja a mesma temperatura (homogeneização), finalmente a lâmina é resfriada bruscamente em ar óleo ou água, de acordo com o tipo de aço. Este processo aumenta muito a dureza do aço, porém a lâmina fica muito quebradiça, o que faz necessário um revenimento.

Revenimento: É um processo recomendado para todos os tipos de aço pois aumenta a elasticidade do aço após a têmpera, além disso é através do revenimento e não da têmpera que se define a dureza final do aço .

Este tratamento consiste no aquecimento do aço a uma temperatura bem abaixo da temperatura de têmpera, mantendo-a por pelo menos uma hora, depois resfriando a peça naturalmente até atingir temperatura ambiente (para alguns aços dois revenimentos são recomendáveis).

Tratamento Sub-Zero: Para alguns aços modernos principalmente os inoxidáveis este tratamento é altamente recomendado, pois os elementos de liga (materiais que são misturados ao aço para melhorar sua qualidades mecânicas) podem inibir a têmpera, fazendo com que até 30% do aço não endureça, a melhor maneira de corrigir-se esta “falha” é através do resfriamento muito abaixo de “zero” ( pelo menos 50 graus negativos , um material muito usado para este tipo de tratamento é o nitrogênio que pode atingir até 196 graus negativos o que é mais do que suficiente). O tratamento sub-zero faz com que até 100% do aço endureça.

Este processo obtém melhor resultado se feito entre a têmpera e o revenimento, o que como vocês já podem ter percebido fragiliza ainda mais o aço, porém após o revenimento este processo garante ao aço alto desempenho inclusive aumento da elasticidade por que a estrutura do aço após o tratamento sub-zero fica mais homogênea. Outra característica deste processo é que ele funciona como um equalizador, traduzindo: se você tempera por exemplo dez facas em um dia algumas delas podem não atingir a dureza desejada, o tratamento sub-zero faz com que todas as laminas indiferente da dureza após a tempera atinjam a mesma dureza final.

Definidos os tratamentos térmicos de uma faca podemos definir os parâmetros a serem seguidos. Um parâmetro pode ser considerado como uma referência, um valor fixo, isto é se você sabe qual a temperatura e o tempo usado em um tratamento térmico você pode prever a dureza final da faca e consequentemente repetir o processo com garantia de que todas as facas terão um desempenho similar. Obviamente precisão influencia bastante no resultado final de um tratamento térmico por isso os fornos elétricos são mais recomendados principalmente se for um digital, pode-se conseguir tratamentos térmicos muito bons usando-se uma forja ou um forno a gás, porém devido a imprecisão a possibilidade de uma de suas facas não ficar perfeita aumenta bastante.

Vamos dar como exemplo um aço muito conhecido na cutelaria mundial de alto nível e um dos meus favoritos devido a sua versatilidade que é o 440-C .

A temperatura de têmpera recomendada para este aço é de aproximadamente 1040 graus centígrados e para uma peça do tamanho de um canivete 3 a 5 minutos de permanência no forno são suficientes, um tratamento sub-zero neste aço é altamente recomendado pois aumenta em muito a durabilidade do seu fio. O tempo de permanência em temperatura abaixo de zero é muito relativo pois alguns cuteleiros recomendam 15 minutos enquanto outros recomendam até 24 horas, nos testes que eu realizei o tempo não influenciou muito no desempenho das facas em teste de corte de corda, porém recomendo pelo menos uma hora de congelamento para total homogeneização da estrutura do aço.

Durante o revenimento parte da dureza do aço perde-se, porém há um aumento substancial da elasticidade o que é fundamental pois um faca quebrada não serve para nada.

Abaixo uma tabela de temperaturas recomendadas para revenimento de acordo com a dureza final desejada.

Escala Rockwell C
Temperatura de Revenimento
60.0
sem revenimento
59.0
148° C
57.5
204° C
56.0
260° C
55.0
315° C
Apesar da tabela ser um bom parâmetro o cuteleiro deve testar algumas lâminas para decidir qual a melhor temperatura de revenimento deve ser utilizada em suas facas, pois variações podem ocorrer.